quinta-feira, 29 de maio de 2014

Despoeta

Crer nas mais doces palavras
Como se a mentira não fosse parte deste mundo.
Detentor de todo o poder do que tudo "viria-a-ser".
Deu preferência a levar até onde já não podia.
Dá direito ao que é melancólico.
Dá direito à má palavra.
De púrpura reluzente, o grau desce, a se tornar cinza e preto e branco.
Da solidão foi a um encontro desencontrado e distraído.
Vaga sem rumo. A um, nenhum significado.
Como preferisse mudar do vinho para a água.
Desfazer o que foi feito. Apagar o que foi escrito.
Quebrar toda a base que servia de apoio. Desencantar o conto.
Afinar o coração em dó.
Engatar a marcha à ré.
Em mim, em si, a desilusão não cabe.
Faz, tanto faz.
Se o sol brilha ou se a lua é eclipsada ou quantas luas se vê em Júpiter.
Lá também não mora o amor. Lá se perdeu uma canção cuja herança é apenas a lembrança do som.
Em si, não foi cantado como devia. Não foi escrito em partitura.
Chico Buarque nos deixou como herança, e ele não haverá de se perder.
De tudo, fazer poesia,
Incansável exercício de pedalar
E manter-se em movimento para não cair.
E, se parar, pôr o pé no chão.
E não mais poetizar.

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